Marco Santos, da GFT: “Queremos aumentar o número de profissionais de tecnologia de 1,5 milhão para 3 milhões em oito anos”


Marco Santos, presidente da GFT para a América Latina, diz que estimular a formação de pessoas nas áreas de exatas, tecnologia e programação é a saída para o Brasil não ser atropelado pela quarta revolução industrial

De acordo com a Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação), o setor de tecnologia cresceu 2,5% em 2018 e foi responsável por 7% do PIB.

O salário médio dos profissionais da área é 2,4 vezes maior do que o da média nacional, e a demanda por esses trabalhadores deve aumentar entre 8% e 9% em 2019, com aceleração nos próximos anos. Entretanto, o Brasil enfrenta um grande desafio em relação a essa mão-de- obra. Hoje, o país forma apenas 46 mil pessoas com perfil tecnológico por ano – mas é preciso 70 mil.

“Formamos poucas pessoas nas áreas de exatas e tecnologia, e muitas em áreas como Direito, por exemplo”, afirma Marco Santos, presidente da GFT para a América Latina, multinacional de TI para o setor financeiro que atende clientes como Bradesco, HSBC, Deutsche Bank, Banco Original, Citi e SulAmérica nas áreas de engenharia de nuvem, inteligência artificial, internet das coisas e blockchain.

A empresa foi fundada em 1987, está em 13 países e conta com mais de 5 mil colaboradores. No Brasil desde 2005, emprega mais de 800 funcionários em suas três unidades: Barueri (SP), onde fica a sede, Sorocaba (SP) e Curitiba (PR). Marco faz parte da GFT desde 2011. Antes disso, foi executivo em empresas como Tata Consultancy Services, Oracle, CPM Capgemini e Organic Inc.

Paulistano, o executivo tem 43 anos e é formado em Ciência da Computação pela Universidade de São Paulo. Cursou MBA em Comércio e Relações Internacionais na FIA USP e Gestão de Negócios Internacionais na Universidade de Illinois.

Na entrevista a seguir, Marco fala sobre revolução tecnológica, mercado de trabalho, métodos ágeis, tecnologias exponenciais e oportunidades de trabalho. Confira:

O que são os métodos ágeis, e como eles estão transformando as empresas?

O mundo está passando por uma forte aceleração tecnológica que faz surgir rapidamente novos métodos, novos produtos, novas empresas e mudanças muito profundas em ciclos cada vez mais curtos.

Transformações que, antes, demoravam cinco ou dez anos, agora ocorrem em meses. Essa aceleração provocada pelas tecnologias exige que as empresas sejam ágeis, para se adaptar ou mesmo provocar essas mudanças, e não serem afetadas por elas.

Esse novo cenário inclui um consumidor muito exigente e que quer tudo mais rápido, e atinge toda a cadeia de valor: indústria, distribuição, fornecedores, bancos.

As empresas brasileiras estão preparadas para isso?

A maioria, não. Uma parte está tentando se transformar, o que é um processo bem desafiador e complexo, mas que está sendo feito de forma incompleta. Nossas companhias ainda estão focadas no modo tradicional, presas a um modelo cultural de aprendizado, ao trabalho por muito tempo na mesma atividade e, depois, a aposentadoria. Isso não funciona mais. É preciso se reciclar e reaprender cada vez mais rápido e em ciclos cada vez menores. Por isso a nossa dificuldade de atuar como países mais avançados, como Estados Unidos, Japão, Alemanha, Coreia do Sul ou Singapura.

O que precisamos fazer para não ficar para trás?

Todas as carreiras, no futuro, vão exigir que a pessoa entenda de programação. Todos os países líderes em inovação estão implantando políticas de Estado e estimulando a formação focada no chamado STEM (Science, Technology, Engineering e Mathematics).

Eles entendem que isso é o futuro e investem nessas formações para aumentar o número de profissionais com essas qualificações. No Brasil, as áreas com mais formados são Direito e Administração, seguidas de Medicina e Pedagogia.

O número de formados em áreas ligadas à tecnologia e à engenharia ainda é muito baixo. Precisamos enxergar que boa parte da advocacia será substituída por inteligência artificial em cerca de quatro ou cinco anos. Os robôs vão fazer grande parte das tarefas em várias profissões. Estamos na contramão, formando poucas pessoas na área de exatas, e a quarta revolução industrial vai chegar e nos afetar muito seriamente.

Como você pretende dobrar o mercado de TI brasileiro em oito anos?

Criamos o projeto Moonshot, um grupo de empresários, executivos e ONGs que visa inspirar e mostrar a importância dessa revolução que está acontecendo e por que é urgente formar profissionais de tecnologia.

Fazemos isso por meio de projetos e programas sociais e educacionais que fomentam o aprendizado, que envolve ensinar a programar, desde a educação básica até as universidades. Queremos aumentar o número de profissionais de tecnologia de 1,5 milhão para 3 milhões em oito anos, o que geraria um impacto direto de 300 bilhões de reais na economia.

Uma das formas de fazer isso é por meio de conscientização, palestras em escolas, entidades e divulgação na mídia. Há várias iniciativas boas no Brasil, mas elas estão isoladas e, assim, perdem força. É preciso conectá-
las.

Você participou do Executive Program, da Singularity University, na Califórnia…

Sim, é um programa que busca mostrar aos participantes como o mundo será no futuro. São discussões e debates sobre cenários para os próximos cinco, dez, 20 anos e o impacto que as mudanças vão gerar na economia, na sociedade, na educação e em outras áreas.

O evento incentiva líderes de empresas, governos e ONGs a buscar soluções para problemas da humanidade em várias frentes: saúde, ecologia, habitação, mudanças climáticas, emprego e renda, por exemplo.

Que impactos a tecnologia vai causar no mercado de trabalho?

A capacidade global da automação, da robotização e da Inteligência Artificial dobra a cada três meses, e o poder computacional tem duplicado ano a ano. São as chamadas tecnologias exponenciais, que impactam na economia global: IA, robótica, automação, realidade aumentada e virtual, biotecnologia e internet das coisas.

Essa aceleração é muito forte, e está substituindo trabalhos operacionais e repetitivos. Tudo que puder ser automatizado, será, porque as máquinas fazem essas atividades melhor, mais rápido e mais barato que nós. Acredito que vamos poder nos focar em trabalhos que exigem criatividade, inovação, empatia, design e inteligência emocional. E, por trás disso tudo, está a programação.

Mas essa mudança tende a ser mais dolorosa para países que ainda têm problemas básicos para resolver, como o Brasil. Fomos criados num modelo em que as crianças e os jovens vão para uma sala de aula, aprendem, se formam, depois trabalham 35 anos, se aposentam e morrem.

No futuro, você vai estudar, se formar, trabalhar, depois aprender outra coisa, trabalhar de novo e reaprender mais uma vez, em ciclos ágeis de aprendizado contínuo. Aprender e desaprender eternamente. Países de primeiro mundo já estão começando a viver isso.

POR ALVARO BODAS – entrevista para Você SA

Esta entrevista foi publicada originalmente na Você S/A.

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  1. Uma das primeiras medidas que eu, particularmente, adotaria era procurar de alguma forma aumentar o status dos profissionais de exatas, assim como os de pedagogia. Em segundo lugar, colocar no currículo das escolas públicas e privadas brasileiras o ensino obrigatório de computação, talvez, a partir do quinto ano do ensino fundamental. Lembrando que a APA identificou problemas de cognição nas crianças que são expostas a programação muito cedo. Eu mesmo aprendi a programar Basic com 11 anos de idade e Clipper com 13. Lembro que tive junto com outros colegas da graduação em Ciência da Computação na USP (1994), um melhor desempenho durante todo o curso do que aqueles que só foram expostos a programação na faculdade.