Open Banking no Brasil. Onde estamos?


A virada do ano trouxe a aceleração de um processo que já vinha ganhando corpo no mercado financeiro, o Open Banking, sobretudo após a efetivação da diretiva PSD2 (Nova Diretiva de Serviços de Pagamento) na Europa e a regulamentação de Open Banking no Reino Unido. Com a chegada da PSD2, todas as organizações reguladas pelo Banco Central Europeu terão que disponibilizar APIs abertas, ou seja, terão que abrir suas plataformas de forma que terceiros, desde que com autorização prévia por parte dos usuários, tenham acesso a informações selecionadas de contas para realizar pagamentos. Com isso, o assunto ganhou um novo patamar de influência no modelo de negócios das instituições financeiras. Se você não sabe do que estou falando, é melhor se preparar. Vem aí uma nova revolução de hábitos e costumes para o segmento financeiro.  

   Se há alguns anos, a questão da portabilidade telefônica tomou conta do país, o Open Banking tem potencial similar quando analisamos sob a ótica de uma regulação similar à PSD2. Nesse cenário, a abertura das APIs (Application Programming Interface), os impactos gerados pela introdução do Open Banking e a consequente abertura a uma maior participação de fintechs e outros provedores terceiros não bancários, espera-se que determinados serviços, hoje bastante dominados pelos bancos, vivam uma nova realidade concorrencial, onde a inovação tecnológica e de negócios seja incentivada. A partir daí, surge um novo mundo, com infinitas possibilidades de ofertas de serviços, produtos e informação mais vantajoso e com mais conveniência aos consumidores.

   No Brasil, apesar de não termos uma regulamentação semelhante em vigor, grandes bancos estão se adiantando e trabalham com ofertas relacionadas ao Open Banking no mercado, mesmo sem a obrigatoriedade da abertura de suas APIs. Como exemplo temos o Banco do Brasil e a Conta Azul, que segundo o próprio banco foi “a primeira operação estruturada de Open Banking no Brasil”. Já o Banco Original lançou uma plataforma de Open Banking que permitiu a integração de aplicativos e redes sociais com os serviços do banco e tornou disponíveis APIs para realizar operações nas contas dos clientes.

   A maioria das grandes instituições ainda se posiciona de uma forma conservadora em relação à adoção do Open Banking, por desconhecer os efeitos em suas marcas quando o produto é comercializado em canal de terceiros e mesmo com receios sobre os potenciais impactos de responsabilização jurídica, especialmente nas operações indiretas feitas por canais de terceiros e produtos de terceiros vinculado a uma plataforma bancária aberta.

   De outro lado, parece haver ciência de todos os players do mercado que não há caminho de volta: o Open banking veio para ficar e, quem não aderir a esse avanço mercadológico pode perder espaço para concorrentes não tradicionais, desde “big techs” até as fintechs, empresas que já nasceram sob o prisma da inovação. Adotar essa abordagem de um banco aberto, baseada em uma arquitetura aberta e escalável (open APIs), pode transformar instituições financeiras clássicas em plataformas modernas capacitadas a oferecer serviços financeiros perfeitamente conectados, com estruturas modulares e acessíveis individualmente para cada um dos clientes.

   Com os marcos que vão surgindo – mais recentemente, houve aprovação do Open Banking no México, as instituições nacionais vivem um momento que reúne tanto expectativas quanto a ampliação e a aceleração dos investimentos. Até o final do ano, segundo sinalizações feitas ao público, o Banco Central brasileiro deve apresentar um posicionamento sobre o tema. Nesse contexto, os bancos já precisam se preparar para entender quais as melhores formas de aplicação do Open Banking. Hoje, os principais países-referência são Espanha, Coreia do Sul e Cingapura.

   O momento, em se tratando das instituições financeiras nacionais, é de entender a mudança de cultura interna necessária para adaptação das maneiras de pensar, trabalhar e entregar serviços e produtos aos consumidores, com novas formações e reestruturações organizacionais. Surgirão novas ofertas de negócios, com produtos criados especialmente para atender a nichos de mercado, distribuídos de forma barata pelos canais digitais abertos. O modelo de distribuição da tecnologia precisa ter em mente a criação de ecossistemas envolventes e ágeis, que facilitem a vida dos desenvolvedores parceiros. Isso tudo, pensando sempre, na geração de valor potencial que o Open Banking pode prover às empresas.

   É uma corrida e tanto para o mercado se adaptar e conseguir oferecer as melhores saídas e soluções tão logo chegue a regulamentação. Além disso, as instituições precisam educar os consumidores sobre os ganhos com o emprego do Open Banking, garantir a segurança ao repassar dados etc. Se temos um dos maiores e mais inovadores mercados financeiros do mundo, precisamos estar preparados para os desafios e as oportunidades que aparecem no dia a dia. E o Open Banking, certamente, é uma daquelas transformações com potencial incrível de ditar quem sairá vencedor e quem sairá perdedor. É esperar para ver.